«O Lago Mágico e outros contos», de Ana Gomes

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Existia um lago que tinha uma forma bem especial, para lago que era. Apresentava-se como se fosse uma espécie de coração. Era ladeado por vasta e variada vegetação, não só árvores como também arbustos e outras plantas. Essa vegetação tinha uma característica muito interessante: todo o ano floria. Quase não se dava conta de que umas flores morriam e outras nasciam. Claro que aquele local era bem especial e diferente de qualquer outro que possamos conhecer!
 
Eram magnólias magníficas e perfumadas; rododendros com flores de muitas e belíssimas cores; hibiscos como nunca foram vistos, com flores enormes, singelas e dobradas; azáleas de cores fabulosas e de uma perfeição e singeleza extraordinárias; safaris fortes e com flores de muitas formas e cores; orquídeas gigantes de todas as cores possíveis e inimagináveis; dálias com corolas enormes e muito coloridas; cravos de muitas cores e bem cheirosos; angélicas delicadas e belas; eucómis com florinhas minúsculas ao redor de um caule verde mesclado; petúnias de cor intensa e corolas enormes… E ainda peónias, pralinas, acácias, embondeiros, jacarandás, tílias — das quais se fazia um chá delicioso e calmante — e tantas, tantas outras plantas e árvores que tornavam o ambiente maravilhoso e fascinante, não só por todo o colorido como pelos seus variados aromas, suaves e deliciosos.
 
Existiam também imensas árvores de fruto, com frutas apetitosas e perfumadas como goiabas, cocos, acerolas, cajus, abacaxis, açaís, bananas, araçás, abacates, figos enormes e suculentos, fisális, laranjas grandes e sumarentas, pêssegos vermelhos e tão gostosos, mamões, papaias, maracujás, melancias doces que se desfaziam em água fresca, jabuticabas, mangabas, jacas, gamboas, pitangas, uvaias, macaúbas, carambolas, uvas gordas e de várias cores, anonas doces e deliciosas… Enfim, uma vastíssima quantidade de tudo o que era importante para tornar aquele lugar apetecível e onde se podia viver sem preocupações.
 
Nos ninhos, pássaros exóticos entoavam suave e maravilhosamente o seu canto. De vez em quando, sobrevoavam o lago com movimentos delicados e elegantes.
 
Um pouco mais acima, uma cascata de águas límpidas e fumegantes conferia ao lago um sempiterno movimento ondulante.
 
A água do lago era de tal forma cristalina e pura que quem se chegasse junto dele poderia ver-se reflectido com a maior nitidez. Estas características só a natureza as sabe criar e manter…
 
De quando em quando, elevavam-se, no ar, bolas transparentes, coloridas e brilhantes que davam à paisagem um tom de festa. No seio do lago, nadavam, em movimentos harmoniosos e compassados, alguns peixes, também eles matizados e muito engraçados. Das suas águas, enfim, emanava um aroma tão aprazível, embora ténue, que dispunha bem quem lá se encontrasse.
 
Deixem-me dizer-vos que este lago se situava num país tão longínquo do conhecimento dos Homens que, durante muito tempo, ninguém soube da sua existência. Apenas se sabia os nomes do local — Lugar das Compensações — e do lago — Lago Mágico —, por estarem inscritos numa pedra alva, brilhante e macia que havia nos arredores. E só as pessoas privilegiadas tinham conhecimento disso.
 
Existiam mais pedras à volta do lago. Umas de um azul-esverdeado, amarelo-canário, verde-esmeralda, lilás-malva ou rosa claro; outras ainda de um castanho aveludado, salmão suave, madrepérola, marfim, cinza prateado e de muitas, muitas outras cores que embelezavam e tornavam aquele local num sítio misterioso, calmo e apetecível.
 
Era, em suma, um lugar de sonho jamais imaginável!
 
Apareciam, por ali, muitos animais que passavam parte do seu tempo sentados nas pedras, dormindo a sua sesta ou apenas dormitando, relaxando no meio de tanta beleza e de tantas sensações que aquele ambiente lhes proporcionava. Depois, iam-se embora, ordeira e serenamente, para mais tarde voltarem.
 
Todos os dias e todas as noites aquele lugar enchia-se de encanto. À noite, era o brilho que mais fascinava e iluminava todo o lago e o espaço envolvente. As flores adormeciam para, de manhã, acordarem frescas e revigoradas. Os peixes também paravam de nadar e recolhiam-se em buracos, onde repousavam do dia que já acabara. Só o lago parecia vivo, com o seu brilho inebriante e o seu movimento ritmado, assim como a cascata que o alimentava e nele deixava cair mansamente as suas águas puras e diáfanas.
 
De manhã, os pássaros verdes, amarelos, cinzentos, lilases, laranja, azuis e de muitas mais cores acordavam e, com a sua voz melodiosa, chilreavam, planando sobre o lago que tanto os atraía. As flores abriam delicadamente as suas corolas, espalhando o seu perfume e expondo toda a sua beleza. Os peixes saíam dos buracos, estendendo os corpos e retomando o nadar dançante que lhes dava imensa graça.
 
O lago renovava toda a vida à sua volta e sentia-se inteiramente agradecido por tão bom acompanhamento. Nunca sentia a solidão.
 
Todos se respeitavam e cumpriam as regras da natureza. Cada um ocupava o seu espaço e nunca interferia no espaço do outro. E, muito menos, o destruía. Era nessa harmonia que se vivia no Lugar das Compensações.
 

in «O Lago Mágico e outros contos», de Ana Gomes, Ed. Cordão de Leitura